Produzido no Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro - ISERJ. Nosso e-mail: cidadeeducativa@googlegroups.com

4 de julho de 2016

Frutos da Colônia Penedo

Lila Almendra Praça de Carvalho cursou o Mestrado de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA/UFRRJ).

O painel acima foi o vencedor de antropologia da Anpocs de 2014.

17 de março de 2016

Pilares para a Educação

Lá vou eu saindo da vila Esperança.
Caminhando tranquila e atenta. Com a mente calma e alerta.
Passo por eles que ouvem “Soldado do morro”, e tento compreender a realidade deles. Daí percebo que esta é, também, a minha realidade.
Mas hoje desci sem ouvir nada. Estava querendo ver.
Gostaria de fotografar,
mas não são todos os locais que eu ousaria carregar uma câmera.
Passei pela família “Peppa Pig”.
Um leitão maior que muito marmanjão por aí , uma leitoa e seus filhotes.
Estavam descansando, ainda era cedo.
Mais embaixo estava um jovem preto magrelo,
fazendo de sua “nove”, limpinha, um apito, ao assoprar o cano vazio.
Fui seguindo com os olhos bem abertos.
Observei que, na garagem da transportadora, tem uns tijolos vazados com desenhos quadrados. Normalmente vejo redonda a parte central do tijolo.
Observei, também, uma Santa Mãezinha olhando a Lua de São Jorge.
Tem uma casa de ração na esquina entre as ruas Edmundo e Soares de Meireles.
No muro tem uma linda imagem de São Jorge e seu dragão.
Larguei o dragão de São Jorge e segui para a linha do trem.
Aqui, o único Ramal que passa é o de Belford Roxo.
Atravessei o buraco da linha do trem paredes quebradas para servir de passagem por cima da linha férrea e cheguei numa Pilares suburbana, porém habitável.
E lá vou eu esperar meu 457 para ir ao Instituto de Educação.
Texto e foto de Michele Souza

13 de novembro de 2015

São Cristóvão da aristocracia à atualidade


Imagens reunidas por Helio Brasil em JUNHO 2015
e apresentadas por ocasião da
“Jornada de Pesquisa e Extensão -
Diálogos em formação” / ISERJ

5 de outubro de 2015

VIAJOU SEM PASSAPORTE: A INTERVENÇÃO URBANA CRIATIVA


Vanessa Bárbara
É melhor dormir em meio às vacas que em meio às suas etiquetas e respeitabilidades.
Nietzsche
     Imagine-se caminhando por uma calçada no centro de São Paulo, apressado e distraído. Como de costume, você tenta ultrapassar um homem que anda (vagarosamente) à sua frente. Mas, de maneira brusca, ele resolve parar e dar a volta em torno de uma árvore, como se fosse a coisa mais normal do mundo. E continua a andar, satisfeito.
     "Pá, mas já é a terceira pessoa que eu vejo dar a volta nessa árvore!", disse um moço, sentado em um bar próximo ao local. Os transeuntes ficam olhando, com uma expressão de perplexidade e medo, pensando em coisas como: "Que será que aconteceu com esse maluco?", "Acho que é promessa", ou "Será que a gente ganha algo se der a volta também?".
     Não era só maluquice, tratava-se de um ambicioso projeto. Era a "Trajetória em Torno da Árvore" – sim, há um nome pra isso –, e fazia parte de uma espécie de jogo ou intervenção criativa nas ruas de São Paulo. A coisa aconteceu em 1978, em frente à Biblioteca Mário de Andrade (SP), e foi uma invenção de oito membros do grupo de teatro "Viajou Sem Passaporte".
     Tudo bem, é estranho. Foi apenas o início de várias outras intervenções, tão bizarras quanto esta: a Trajetória do Curativo, a Trajetória do Paletó, o Trem Fantasma no Parque Ibirapuera e o Fim da Década. Todos projetos aparentemente bobos, mas que continham enorme carga de desobediência civil e provocação: segundo Luis Sergio Raghy, um dos participantes, o objetivo era "instaurar uma crise na normalidade vigente", lutando contra a sujeição apática às regras e buscando a liberdade individual.
Revista Siete Dias ilustrados, da Argentina. 31/10/1979
Intervenção do Viajou, na abertura da Bienal de SP, c/ a participação de convidados.
     Por exemplo: a Trajetória do Curativo. "A gente pegou uma linha de ônibus e ficou um em cada ponto da linha. Cada um com um curativo no olho. E tinha dentro do ônibus uma pessoa disfarçada de passageiro, só pra observar", conta o Raghy, na publicação Arte em Revista. "Então o primeiro deles entrava no ônibus, passava a catraca, curativo no olho e tudo bem". No ponto seguinte, outro deles subia, também com um curativo no rosto. O ônibus ia andando e sempre tinha um com um curativo, contente, agindo como se tudo estivesse na mais sacrossanta ordem.
     Em cada ponto descia um e subia outro. Num determinado momento, o motorista já virava para trás e o clima estava estranho. As pessoas se entreolhavam: "Quer dizer: um ou dois talvez fosse uma coincidência, mas dez caras.., é foda! Tem alguma coisa aí". Os passageiros ficavam especulando, cochichando – será que é organizado? Mas quem é se organizaria pra fazer um troço desses, por Deus? No último ponto da trajetória tinha um cara do grupo, segurando um cartaz com um rosto desenhado e o curativo colado, com o nome "Trajetória do Curativo", assinado: "Viajou sem Passaporte". Imagina só a cara das pessoas, observando a cena.
 
     Tais práticas, dotadas de um nível de bobice invejável, poderiam muito bem enquadrar-se na desobediência civil de Thoreau ou no "Pequeno Manual de Subversão Cotidiana" (http://fraude.org/sociedade.php), do Marcelo Träsel. "Seja para minar os pilares do capitalismo, seja por simples diversão, aqui vão algumas idéias de como atrapalhar o bom andamento da ordem e do progresso", disse o filósofo da Fraude. Já a Libertad, personagem do Quino, completa: "Una pulga no puede picar a una locomotora, pero puede llenar de ronchas al maquinista".
     O que importa é cutucar. Seja utilizando métodos de interrogação platônica (ficar perguntando infinitamente o porquê das coisas, como uma criancinha birrenta, até que algo se mostre insustentável), ou mesmo dando repetidas voltas em torno da árvore.
MitosVadios_1978
     :: Desafiando o senso comum ::
     Um grupo de sociólogos (americanos) já tentou fazer experiências desse tipo, apenas para testar a reação das pessoas diante da "profanação" de regras cotidianas. Harold Garfinkel, um dos pesquisadores, mandou os alunos testarem as reações de seus próprios amigos. Saíram diálogos do tipo:
(pessoa): Oi, Ray. Como vai a sua namorada?
(estudante): Como assim, "como vai a minha namorada"? Você quer dizer, como ela está fisicamente, mentalmente...?
(pessoa): Perguntei como ela vai, oras! Qual o problema com você? [a pessoa parece irritada]
(estudante): Nenhum. Apenas explique um pouco mais claramente o que você quis dizer com isso, por favor?
(pessoa): Tá, tá. Deixa pra lá. Como estão indo as provas na Faculdade?
(estudante): Como assim, "como elas estão"?
(pessoa): Você sabe o que eu quis dizer.
(estudante): Eu realmente não sei.
(pessoa): Qual o problema com você? Está doente?

     Muitas vezes, a coisa ia tão longe que até a hipocrisia era revelada, para espanto do estudante que fazia a experiência:
"A vítima acena, com uma satisfação incrível e um contentamento impressionante.
(pessoa): Oi!!! Como vai?
(estudante): Como vou, com relação a quê? Minha saúde, minhas finanças, minhas notas na faculdade, minha paz de espírito, ...?
(pessoa - ficando vermelha, e subitamente fora de controle): Olha aqui!!! Eu só estava tentando ser educado. Francamente, não dou a mínima pra você!"

     Outras experiências foram feitas dentro da própria família: os alunos eram orientados a agir em casa como se fossem hóspedes, de maneira polida e distanciada, que é o que geralmente acontece nas relações formais cotidianas, com pessoas desconhecidas. Tente responder a algum grande amigo seu: "Concordo plenamente, Sr. Herzberg!", como fez um dos alunos em relação ao pai. Experimente não parecer feliz dentro de uma sala de aula, com os seus supostos colegas, para ver como aparentar alegria é uma norma a ser cumprida, o tempo todo.
     As reações são das mais esquisitas: Qual o problema? O que você tem? Você foi demitido? Está doente? Por que está sendo tão arrogante? Andou bebendo? Você é idiota? Por que você está maluco? Um dos estudantes "envergonhou" sua mãe na frente dos amigos (dela), apenas entrando na sala e dirigindo a seguinte pergunta: "Desculpe, mas a senhora se importaria se eu apanhasse um lanche na geladeira?". A mãe ficou furiosa e tentou explicar às amigas que o filho estava doente, trabalhando bastante ou algo do gênero. Um dos pais chegou a dizer:
(pai): Sua mãe está certa. Você não parece bem e não está agindo de maneira coerente. Deveria escolher outro emprego, que não exija tanto de você
(filho): Aprecio a demonstração de consideração, pai, mas estou bem e preciso apenas de privacidade.
(pai – perdendo a compostura, bravíssimo): Não quero mais saber dessa maluquice que te deu, e, se você não consegue tratar sua mãe de maneira decente, é melhor ir embora dessa casa!
Em 1981, num trabalho em conjunto com o CLE - Centro de Livre Expressão, o Viajou participou de um projeto organizado pelo grupo Manga Rosa. O blog do Carlos Alberto conta a história: http://carlosalbertodias.blogspot.com.br/
Foi colocada uma cadeira num outdoor, e durante 2 horas, todos os dias, alguém ficava sentado nela, lá na av. Consolação.
     :: O senhor poderia segurar meu paletó? ::
     O que fazer numa sociedade previsível e aprisionante? "Todos reconhecem o direito à revolução, ou seja, o direito de negar lealdade e de oferecer resistência ao governo sempre que se tornem grandes e insuportáveis a sua tirania e ineficiência", responde Thoreau. E então, um grupo de teatro chega e organiza a incoerente Trajetória do Paletó.
     Foi assim: entra um cara no ônibus vestindo um paletó. Um calor absurdo, as pessoas derretendo em seus bancos e aquele cara ali, de paletó. Então o segundo sobe e senta na frente, como se ambos não se conhecessem. De repente, o que estava com o paletó passava pro outro, dizendo: "O senhor poderia segurar o meu paletó?". E depois descia, sem mais nem menos, deixando a roupa nas mãos de um suposto desconhecido. Que, dentro de alguns instantes, passava o paletó pro terceiro homem do grupo, e assim por diante.
     O Raghy era o último a receber a roupa, e sua missão era entregar o paletó para algum passageiro qualquer do ônibus, aleatoriamente. "Na hora que eu subi já estavam dando gargalhadas", diz.
     "O ônibus estava quente, você sentia, saca um clima diferente. E todo mundo já tinha percebido que seria eu que receberia o paletó. Tava mais que na cara. E a gente, lá, com a maior seriedade. Aí o elemento do grupo passou o paletó pra mim e eu fiquei com ele. O cara desceu. Então, naquele banco atravessado tinha duas mulheres que riam pra caralho. Morriam de rir, não sei porque, né? Acho que do absurdo da situação... Aí eu pensei comigo: Vou entregar pra uma delas o paletó. Na hora de descer, cheguei e disse: ´A senhora podia segurar o meu paletó?´ E elas: ´deixa ai, deixa aí´, e pus no banco.
     Eu desci e o paletó continuou sendo passado dentro do ônibus. Aí alguém falou assim: ´Acho que é promessa...´ e coisa e tal. Ninguém achava que era arte. Cada um dizia que era uma coisa. Uma das mulheres falou o seguinte: ´- Olha, só mesmo a gente andando de ônibus pra gente se divertir´. Puta, achei essa frase ótima, incrível. Aí acontece que alguém pegou o paletó e desceu com ele. Dentro desse paletó estava escrito ´Favor devolver no endereço tal´, prevendo-se a remota hipótese de alguém devolver o paletó. Aí seria incrível (nunca aconteceu), o paletó teria dado uma trajetória completa. Mas era um paletó bom e o cara deve ter ficado com ele".

     :: Não vejo a hora de ser uma velha doida ::
     Pode parecer total falta de coerência, mas é (também) revolucionário. Quando a intervenção é nas ruas, são muitos os que admitem a quebra dos padrões e se rendem à irreverência total com relação às regras; mas, quando a subversão acontece dentro de alguns locais, a coerção se faz sentir. Houve um caso, num colégio católico paulista, em que uma garota (não vou citar nomes) foi suspensa pela Diretoria da escola por ser "anti-social". Era a justificativa: está lá, escrito na ficha criminal. Apenas porque se recusava a sorrir perante as câmeras, a ser gentil e bem-humorada com seus adoráveis colegas.
     Para Henry Thoreau, sai mais barato - em todos os sentidos - sofrer a penalidade pela desobediência do que obedecer. E ele vai além: sob uma sociedade que prende os cidadãos numa rotina coercitiva e insuportável, o único lugar digno é a prisão. Declara, em A Desobediência Civil: "Hoje em dia, o lugar próprio, o único lugar que Massachusetts reserva para os seus habitantes mais livres e menos desalentados são as suas prisões, nas quais serão confinados e trancados longe do Estado, por um ato do próprio Estado, pois os que vão para a prisão já antes tinham se confinado nos seus princípios. (...) É aí, nesse chão discriminado, mas tão mais livre e honroso, onde o Estado planta os que não estão com ele mas sim contra ele - a única casa num Estado-senzala na qual um homem livre pode perseverar com honra".
Fonte: http://cierzo-vientosdeleste.blogspot.com.br/2013_05_01_archive.html
     O símbolo da nossa liberdade não é a francesa Marianne, limpa e altiva, com seus olhos brancos de opaco mármore; é a brasileira Fátima (ou Jucineide), velha doida que anda pelas ruas a circundar as árvores, conversando com as pombas e cantando ópera na escadaria do Teatro Municipal. "Não vejo a hora de ser um velho bêbado", era o que me dizia um amigo, inspirado. Se é para estar preso dentro de sua própria insônia, rodeado de vira-latas que apenas podem optar entre doze tipos de comida (tampinha de laranja, casca de cebola, embalagem de isopor ou farofa), é melhor ser um tipo doido, pronunciando todas as consoantes ao mesmo tempo – "com um cano de revólver dentro da boca, você só consegue pronunciar vogais" – e cuspindo nas cabeças das pessoas semi-mortas. As que andam nas ruas a olhar para o relógio e a desempenhar suas funções robóticas: a família, os avós, as estátuas de sempre, o vazio constante e o horror, o horror.
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Se vira:
"Viajou Sem Passaporte" – verbete da Enciclopédia de Teatro do Itaú Cultural. Disponível em: http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia/teatro/index.cfm?
THOREAU, Henry D. Desobediência Civil. Disponível em: http://www.culturabrasil.pro.br/zip/desobedienciacivil.pdf
GARFINKEL, Harold. Studies in Ethnomethodology. New Jersey: Prentice-Hall, 1967.
RAGNOLE, Luís Sérgio. "Viajou Sem Passaporte". Arte em Revista, São Paulo, Kairós: CEAC, ano 6, no. 8, pp. 116-119, outubro de 1984. >

22 de junho de 2015

A aula passada_lembrança de uma oficina literária na favela da Matinha em 2008


Bia Albernaz

 
Favela da Matinha, no Rio Comprido_ foto Lex Moraes
           O portão do “Clube União e Lazer” da favela da Matinha estava trancado. Esta era minha quarta ou quinta aula. Ia uma vez por semana como voluntária para realizar com as crianças do Clube uma oficina de literatura.
            O Clube é um espaço que oferece atividades recreativas às crianças, além de ajudá-las nas tarefas escolares. Umas quinze crianças frequentam regularmente suas atividades. Naquele dia, lá de dentro, algumas meninas haviam pulado o portão e me chamavam. Eram umas quatro ou cinco. Algumas novas, todas mais ou menos da faixa etária de oito a dez anos.
            A uma delas, que se preparava para pular o muro e assim entrar no Clube, eu perguntei: “Fábia, onde é a casa da Lair? A Lair tem a chave.” “Fica lá em cima. Não é muito alto. É perto.” “Tá, eu vou lá. Mas vem comigo me mostrar onde é que é.” “Ah! não, eu não vou não.” Ela era uma menina de menos de oito anos. Disse isso e, segurando a sua sainha de lycra ou cotton, saltou para dentro. Mas outra, de lá, compadeceu-se e fez o caminho inverso. Do alto muro, exclamou:  “Eu te levo, tia.” “Sua calcinha tá furada”, alguém gritou. Ela sentou rápido e caiu de pés juntos perto de mim. Começou a correr e eu atrás. Mas não conseguimos a chave do Clube. Ninguém em casa.
            Que fazer? Resolvi então pular o portão. Pulamos as duas para dentro. Portão vencido, fomos para o terreiro atrás da casa onde fica o Clube. É mesmo um terreiro que ficaria lindo tratado. Horta, não tem. Tem capim, tem as árvores do quintal do vizinho. Bananeiras, goiabeiras... Entre os dois terrenos passa o esgoto. As crianças estão o tempo todo pisando nele. Pra lá e pra cá. Aquele é considerado pelas mães e pelas crianças um lugar de diversão mais ou menos segura.
            Eu andava pelo terreno do Clube mas não podia negar a má impressão que me causou aquela primeira negativa que recebi antes de ir procurar a chave. E agora também. “Vamos na rua onde está a entrada da favela?”, perguntei. E elas, todas: “não”. Lideradas pela Fábia, recusaram-se de maneira tão malcriada que eu falei quase com raiva: “pois então eu vou sozinha. Quem quiser vir que venha.” Quase assim.
          Susana e Magú quiseram vir. Uma menina e um menino tão doces. Deviam ter uns seis anos. Eram os dois menores da turma. Ela meio caboclinha, ele um branquelinho, parecia o meu filho, magrelinho. Demo-nos as mãos e descemos. Descemos a ladeirinha onde biroscas, televisões ligadas, camas cheias de roupa embolada por cima, salão de cabelereiro, formavam a paisagem vista através das janelas coladas às calçadas. Os muitos labirintos por dentro das casas e logo a seguir, a entrada para o asfalto. Na conjunção da favela e do asfalto, o esgoto corria, o lixo acumulava-se e, fiquei pasma, porcos fuçavam.
           Escolhi primeiro o meu personagem pois era assim a atividade: ir à rua e escolher alguém ou algo para figurar como personagem de uma história que iríamos criar em conjunto. Claro, escolhi o porco. Susana escolheu um poste e Magú, um tio que não estava ali. A história final juntou os três personagens, mas foi criada principalmente por Magú, que contava um episódio do seu tio contra policiais malvados. O tio levou a melhor porque tinha uma motocicleta superpotente. (A escolha do herói por Magú ocupou um sessão de análise, resultou neste relato e agora vem à luz, com o desejo de fazer a gente pensar sobre as crianças na cidade do RJ e também sobre a velha brincadeira polícia-e-bandido. Cris Muniz me fez ler um texto de Walter Benjamin que se relaciona com esse caso. Trata do teatro proletário, encenado pela criança enquanto brinca.)              

6 de maio de 2015

Um lugar bonito no meio de um lugar feio1 - Trilha pelo Morro do Céu

Patrícia Pagu
          Era uma vez uma região entre o Grajaú e Nova Iguaçu, que foi dada de presente à um camarista. Esse camarista, cujo nome era Meyer[1], separou parte das suas terras, entre Lins de Vasconcelos e Água Santa, e distribuiu aos negros alforriados da cidade do Rio de Janeiro.
          Essa grande fazenda com terras abundantes se transformou então numa espécie de quilombo legalizado e, sendo muito rico em mananciais de águas cristalinas, acabou chamando atenção de outros nobres cidadãos.
          Bem distante dos escravos, em uma época de homens livres, se fez a urbanização... E, sem escolas e sem saneamento, a região da Boca do Mato cresceu e se favelizou.
          Ali foram educados Martinho da Vila e Luiz Carlos Prestes. Ali, terra de muitos sambas, nasceu a Lins Imperial, rainha de grandes carnavais mas, longe dos serviços do Estado, o lugar ficou sitiado, entregue às drogas e à violência.
Em 27/11/1935, no Jornal da Manhã, o levante da Aliança Nacional Libertadora, a Intentona Comunista, no Rio de Janeiro.
Martinho da Vila em 1967: sargento e sambista.

          A cultura do descaso trouxe o lixo e a poluição, e os riachos e cachoeiras agora são imensas valas negras, matando a comunidade de preocupação.
          Depois de tantas mortes e torturas, depois de tantos relatos de amarguras, eis que chega a "pacificação" que, na verdade, só trouxe especulação. Trocou-se o gatonet pela "Sky", mas segurança, só se for no asfalto pois, no morro, continua o mesmo descaso.
          Ali, policiais esculacham a população mas, no fundo, são filhos da mesma opressão. Nessa serra vistosa, conhecida como dos Pretos Forros, poluída e negra, tal qual capitães-do-mato, treinados com descaso, eles caçam e caçam para mostrar serviço.

Site oficial das Unidades Policiais de Pacificação (UPP)
          A serra dos Pretos Forros continua lá, mais suja e menos livre. Mudou muito mas, para muitos, ela é um lar.  Oh Boca do Mato, sempre escondida dos cartões postais, és o retrato da segregação. Rio de Janeiro dos invisíveis, 450 anos de abandono!
Nota
1- Trata-se de Augusto Duque Estrada Meyer (pronunciava-se Máier), conhecido como o Camarista do Paço, um nobre que servia Pedro II em seus aposentos. Infelizmente não encontramos nenhuma imagem que o retratasse.
2 -  As fotos sem legenda foram tiradas pela autora.

9 de abril de 2015

Os intermediários - os lugares sob a lente fotográfica de uma criança - Parte 2

                                                                                                           Márcia Fernandes
          O que busca uma criança quando mira uma câmera? É muito mais do que uma imagem; é um momento em que eles se tornam autores do próprio percurso, seja ele mágico, doce ou trágico.
        O percurso de Molhen  Bakarat era trágico, mas ele o fez mesmo assim.
        Mas quem foi Molhen  Bakarat?  Sua identidade foi revelada depois de sua morte, em Alepo, Síria, em meio a um conflito de guerra, na semana de Natal de 2013.
       Bakarat entrou para o fotojornalismo, valendo-se de uma oportunidade ou por falta dela. Podia escolher entre ser um homem-bomba em seu país ou aproveitar a facilidade em transitar  nos becos de Alepo. Não sendo aceito pelo seu Estado  para ser um homem bomba, por ser um adolescente "moderno", de acordo com os costumes culturais exigidos para a função, e podendo ir a lugares que somente a população local poderia chegar, entrou para o fotojornalismo.
          Retratava o cotidiano da população, os momentos de desespero, desolação, de  alegria fugaz  e de intimidade, tudo o que somente a convivência compartilhada propicia. Fotograva com sensibilidade e liberdade.
          Com apenas 17 anos, se tornou fotógrafo de guerra, testemunha e vítima. Um jovem pertencente à população local, como tantas outras crianças, que se tornou uma opção, uma salvação para os  jornalistas ocidentais  que embarcavam nessa aventura arriscada de cobrir os conflitos na Síria.
      Bakarat era um garoto comum: gostava de Kate Perry, usava  jeans  e camiseta e  um estiloso  casaco com brasão da Grã-Bretanha.  Sua  foto de perfil no  Facebook  era a de um menino. Parecia feliz com um largo sorriso no rosto.
      Vendeu fotos que renderam milhões para a Reuters. Por 15 fotos, ganhava pouco mais que 100 dólares. Morreu sem capacete e sem colete à prova de balas. A agência de notícias Reuters noticiou a sua morte, mas não revelou a sua idade. Por que?
     Molhen foi salvo de se tornar um terrorista?  Mas morreu pelo terror, por diferentes pesos, mas pelas mesmas medidas. O seu percurso foi curto, mas intenso.
     A guerra continuará, mas a maneira como jovens, crianças que por estarem e fazerem parte da zona de perigo são tratadas como peças de um jogo de xadrez fotográfico, devem ser questionadas.
Molhen e a fotografia, o perigoso percurso do conflito.
          Para nós resta a lembrança; para a Reuters, uma nota: “A segurança de nossos jornalistas, sejam eles funcionários ou freelancers, é primordial…” SERÁ? Com certeza, não. Sem identidade revelada, sem idade divulgada. ( Cf. http://revistazum.com.br/colunistas/sangue-novo-na-guerra/)