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16 de dezembro de 2012

Livro didático, história do estado do Rio e desperdício

Título: História do Estado do Rio de Janeiro, 5º ano
Autor: Renata Siebert
Referência Bibliográfica: SIEBERT, Renata. História do Estado do Rio de Janeiro, 5º ano. São Paulo: FTD, 2008.
            Renata Siebert é formada em Psicologia pela Universidade Paulista (Unip) com bacharelado e licenciatura, e pós-graduação em Psicopedagogia pelo Centro Universitário Dr. Edmundo Ulsin, em São Paulo. Autora de  livros didáticos, principalmente voltados para as disciplinas História e Geografia, escreveu Brasil em Mapas, Maranhão – História e Geografia, História de Pernambuco e Geografia de Pernambuco.
            A autora foi muito feliz na escolha dos textos e das imagens na publicação da História do Estado do Rio de Janeiro. Alunos do 5º ano adquirem uma melhor noção através das imagens, dos conhecimentos abordados. O texto é gostoso de ler, e é facilmente entendido por todos.
            O livro dedica-se à história do Rio de Janeiro, desde sua formação até os dias atuais. Há detalhes e curiosidades bem explorados e as propostas de exercícios são bem elaboradas, fazendo o aluno pensar. A bibliografia é ampla e contribui para pesquisas posteriores tanto dos alunos quanto dos professores.
Na busca de uma imagem ilustrativa da capa do livro na internet, encontramos somente esta. O curioso é que a autora, neste caso, tem o nome de Célia Siebert. Como a edição que consultamos leva o nome de Renata Siebert (infelizmente não tivemos como escanea-la), fica o mistério. Serão irmãs?
             O livro dirige-se ao ensino fundamental, mas qualquer estudante ou interessado na História do Estado do Rio de Janeiro pode usufruir desta leitura. Um excelente material didático.
Resenha realizada por Isabela Beniste, Roberta Pacheco e Mayra Martins
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Livro didático: seu nome é desperdício
O Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), inaugurado em 1985, iniciou-se, com outra denominação, em 1929, pois, de acordo com Guilherme Henrique Pimentel e Denise Vilela, da Universidade Federal de São Carlos (para visualisar a pesquisa na íntegra, clique aqui), "desde o período imperial já existiam instrumentos do governo para avaliação de obras didáticas".

Segundo esses pesquisadores, no exercício financeiro de 2010, os gastos com livros didáticos e obras complementares,  somaram mais de R$ 827 milhões com as obras do Ensino Fundamental e aproximados R$ 196 milhões com as obras do Ensino Médio totalizando R$ 1.022.564.752,98 (os dados estão no portal do Ministério da Educação e Cultura, Coordenação-Geral dos Programas do Livro do PNLD 2011).

"No que se refere à distribuição dos livros didáticos, apesar dos dados oficiais apontarem para o atendimento quase universal das escolas e alunos, os relatos dos gestores ainda indicam os problemas em relação à quantidade de livros que chega à escola e à correspondência entre o livro pedido e o efetivamente recebido." (Para mais detalhes, ver AVALIAÇÃO DO PROGRAMA NACIONAL DO LIVRO DIDÁTICO POR GESTORES DE ESCOLAS DO RECIFE, por Patrícia Maria Uchoa Simões)

Hoje, o programa atende todos os 35 milhões de estudantes de escolas públicas, do 1o ano do ensino fundamental ao último do nível médio. Todos os estados são atendidos, com exceção de São Paulo, que executa seu programa de forma autônoma. Em 2009 o programa entregou – através dos Correios – 103 milhões de livros a 140.000 escolas em todo o Brasil.(cf. Wikipedia)

"O processo de avaliação começa com a inscrição das obras pelos editores e passa por uma seleção técnica a fim de verificar as condições físicas do livro. O material aprovado nessa etapa é encaminhado para a avaliação pedagógica, feita por instituições de ensino superior contratadas pelo MEC. Entre os critérios determinantes na escolha estão: respeito à legislação, ética, coerência e adequação da abordagem aos objetivos visados, correção e atualização de conceitos, observância do manual do professor, entre outros. Para cada obra aprovada, é produzida uma resenha na qual se indicam as qualidades e potenciais de uso em sala de aula. Essas resenhas compõem o Guia de Livros Didáticos que é encaminhado às escolas para subsidiar a escolha dos professores." (Portal da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro)
 

Os livros didáticos são escolhidos pelos professores das escolas públicas. O FNDE adquire, no ano anterior, todos os livros que serão utilizados pelas escolas, no ano letivo seguinte. Essa aquisição é feita com base na projeção de matrícula realizada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep/MEC), a partir da prévia do Censo Escolar. [...] Estudos revelaram que o controle de estoque da reserva técnica e o remanejamento do excedente de livros entre escolas num mesmo Estado, raramente são feitos pelas equipes das Secretarias de Educação. (cf. SISTEMA DE CONTROLE DE REMANEJAMENTO E RESERVA TÉCNICA – SISCORT
Pilhas e mais pilhas de livros didáticos são jogadas fora a cada ano. É só dar uma busca pela internet.
 

10 de dezembro de 2012

Vou sair para ver o Sol

Mônica S. Vallim
Amo praia deserta, mesmo num camping. É sensação de liberdade plena e natureza. Uma experiência mágica que muita gente jamais se permite, e ainda assim, prefere falar mal! Atualmente sou uma ratazana de Internet que convive com a insônia há mais de uma década, "vou mentir e dizer que eu não sou feliz", e afirmar que ficar numa pousada cinco estrelas é uma experiência muito desagradável por conta dos hóspedes pedantes. Afinal o inferno são os outros.
Talvez você esteja se perguntando: Mas o Rio de Janeiro não tem lindas praias com campings? Tem sim. Trindade, e Conceição do Jacarei por exemplo são aldeias de pescadores do nosso litoral sul que ainda pretendo conhecer. A verdade mesmo é que estou com saudades de viajar a lugares remotos e selvagens. Quero me aventurar e curtir o verão de outras praias. Quem sabe um dia voltar à Praia de Castelhanos, que reencontrei graças a lembrança das histórias que meu pai fez questão de registrar na minha memória como a praia dos piratas castelhanos e seus "contrabandos de escravos", "os antepassados da sua mãe" que ele fazia questão de mencionar para irritá-la, e ao GOOGLE que me ajudou a resgatar esse local me fornecendo algumas imagens do que eu ainda recordava desse paraíso perdido. Pois meus pais morreram na década de 80, e tudo do que me lembro é que sempre saíamos de madrugada ainda sonolentos, e que levava muitas horas para chegarmos lá. A metade da viagem íamos dormindo na traseira de uma Variant que se transformava numa cama de casal para as três crianças. Estrada asfaltada, fila para a travessia de balsa, mais estrada asfaltada e depois que cruzávamos uma porteira de madeira ficávamos eufóricos. Pois, era a partir dali é que começava a verdadeira aventura.
Um longo e lento percurso por uma trilha na floresta, um tremendo atoleiro que hoje em dia só jipeiro consegue transpor. Mas naquela época meu pai se aventurava seguro e feliz guiando a Variant, cantarolando suas modinhas infames enquanto a minha mãe, coitada, rezava baixinho meio apavorada toda vez que o carro derrapava na lama. Afinal a única coisa que ela pilotava era o fogão.
Quem sabe um dia revivo um pouco das peripécias de infância? Naquele época, eu sempre planejava secretamente nadar até a pequena ilha que ficava em frente à praia para encontrar algum tesouro, mas nunca fui porque tinha medo de me arriscar, e acabava passando mais tempo cienciando o local, temendo as cobras, aranhas e formigas, ou simplesmente decidia ficar descendo o tobogã da cachoeira com meus irmãos menores, em vez de convencer meu pai a nadar comigo, e atingir meus reais objetivos. Quem sabe ele topasse o desafio?
Meu louco líder aventureiro, o meu herói, nadava bem e conhecia os segredos das marés. Ensinou-nos desde pequenos a respeitar as praias e a não confiar em bóias nos moldes práticos da pedagogia Pinochet da época. A aula externa dele era a seguinte: nos colocava dentro de uma bóia e nos conduzia ao mar aberto para sentirmos a correnteza nos puxar para o fundo. A mensagem era clara e convincente: BÓIAS NÃO SÃO CONFIÁVEIS, ELAS SÓ PARECEM SEGURAS. É POR ISSO QUE MUITAS PESSOAS SE AFOGAM, E ALGUMAS MORREM, PRINCIPALMENTE AS CRIANÇAS, POIS NÃO SABEM NADAR E CONFIAM NESSES MALDITOS BRINQUEDOS. - dizia-nos aos berros enquanto nos conduzia em segurança de volta à areia onde a nossa mãe sempre nos esperava muito aflita (ela nunca aprendeu a nadar).


Esse era o jeito dele nos ensinar e mostrar os limites necessários à sobrevivência frente à natureza, pois aprendeu a nadar de maneira autodidata, consequentemente, passou muitos sufocos quando foi jovem e, apesar de ser professor de matemática, nunca deve ter lido nada de Piaget. Depois nos colocou em aulas de natação num clube e tornou-se um torcedor fanático durante nossas competições. Mas, mesmo depois de ter aprendido a nadar bem, e ter ganhado algumas medalhas, o meu medo nunca me deixou tentar aquela travessia.
Às vezes tenho saudades dos meus pais. Mas, é só às vezes mesmo. Sou órfã há quase 2/3 de minha vida, já me acostumei com as perdas há muito tempo, tudo que doeu também já sarou. Depois que inventaram livros de auto-ajuda, colchão inflável, saco de dormir, repelente e GPS, superei meus traumas juvenis do duro e frio colchonete de acampamento, dos terríveis borrachudos, e de tudo o mais que me incomodou até um pouco antes da maternidade. Atualmente me permito ir aonde quiser sem medo, até porque meus parceiros e eu avaliamos em conjunto os prós, os contras, a previsão do tempo, e os demais detalhes de nossas pretensas aventuras, sem jamais esquecermos de levar filtro solar, garrafas de água, barrinhas de cereais e chocolate extra na bagagem.
É como aquele texto que vale a pena ser relido no silêncio das auroras dessa vida para complementar a nossa formação, e agora ficou mais fácil encontrá-lo, compartilhá-lo simplesmente porque inventaram a Internet, e os hiperlinks que nos ajudam a compreender um pouco o que é semiótica, intertextualidade. Assim vamos tecendo nosso conhecimento de mundo, de cidade educativa possível apenas aos que se predispõem a essa patuscada. E como adoro uma trilha sonora, fica a dica dessa música do Detonautas.

Do Méier até o ISERJ na Praça da Bandeira

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No caminho de casa até a minha faculdade, vejo moradores de rua dormindo em marquises, crianças e adolescentes indo para a escola, trabalhadores em direção ao local de trabalho, veículos (muitos carros!), ônibus, motos... tudo isso, vejo, diariamente.

Tudo muda em dias de chuva, a cidade alaga (lixo fora do lixo), o engarrafamento aumenta, o rio enche e a poluição é real e sufocante.

Obras (sei que é por uma ótima causa) e fumaça dos carros agravam a situação, mas também a poluição sonora... o som dos carros nas ruas e as pessoas falando alto; um problema bem comum na nossa cidade, contribuem para piorar mais.

Pego ônibus (tipo "frescão"), gasto uns quarenta minutos quando não há engarrafamento no caminho, do contrário relaxo e durmo.

No trajeto, passo por diversos tipos de construção, casas comerciais, padarias, supermercados, farmácias, Lojas de Departamento, postos de abastecimento (também chamados de postos de gasolina), uma UPA e um Centro de Separação de Reciclagem/COMLURB, na Avenida Marechal Rondon. Passo também por outras faculdades, cursos de idiomas, escolas técnicas... porém o mais bonito é o nascer do sol e as garças frequentemente vistas se alimentando no rio Maracanã.

O estádio Jornalista Mario Filho, conhecido mundialmente como Maracanã, também está no meu percurso e passa por uma grandiosa reforma visando a Copa do Mundo de 2014.

E assim, finalmente, chego à minha linda faculdade ISERJ (antigo Instituto de Educação), instituição de ensino centenária. Seu prédio, próprio e histórico, passa por obras de recuperação, reforma e modernização, a fim de preservar sua história e memória. Tenho a honra de poder conviver no mesmo espaço onde pisaram Cecília Meireles, Anísio Teixeira e tantos outros que fizeram a história da educação do nosso país.

Por que obras para as Olimpíadas no Maracanã?
A EMOP (Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro) informa que o "projeto do Maracanã teve que ser desenvolvido em tempo hábil para que a reforma ficasse pronta para entrega do estádio a tempo da Copa das Confederações", disputada em junho do próximo ano.
O maior desafio e a maior oportunidade da Copa e das Olimpíadas é adequar a cidade para os eventos. Ou seja: melhorar as vias de mobilidade urbana e o sistema de veículos públicos nessas regiões para diminuir o volume de carros que circulam pela avenida Maracanã. Além disso, a reforma abrange o saneamento, os sistemas de saúde e a segurança.
As pessoas podem conhecer as obras do Maracanã, acompanhadas por técnicos responsáveis pela modernização do estádio. A previsão para o término da obra é em fevereiro de 2013.
Para fazer a visita é necessário enviar um email para:
visitaguiada@maracanario2014.com.br, nele deve constar o nome completo, número da identidade e endereço. Mas é preciso ter paciência, pois já existe uma lista de espera com cerca de mil pessoas... Haja paciência!
O Maracanã é a casa do torcedor carioca.
Haja obra... passando pela Radial Oeste... Haja reforma...
Torço para o Brasil chegar inteiro à final da Copa. Torcem todos. Somos uma nação!

8 de dezembro de 2012

Da estação de Mesquita à rua Mariz e Barros: um destino

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Roberta de Carvalho Pacheco
          De segunda a sexta, eu acordo cedo e vou para a faculdade. Estudo no Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro, na Praça da Bandeira e moro em Mesquita, na Baixada Fluminense. Durante o meu trajeto à faculdade, eu tomo conta desse meu mundo.
Fonte: Wikipedia
          Acordo às 5 horas da manhã. Tomo meu banho e meu café. Saio de casa  e vou para o ponto de ônibus há alguns metros de minha casa. Pego o ônibus Austin-Pavuna e me dirijo para a estação de trem de Agostinho Porto. Faço isso para pegar o trem e voltar para a estação terminal de Belford Roxo e fazer a viagem sentada. 
          Dentro do trem, vejo as pessoas com vários tipos de fisionomia: alegres, tristes, cansadas e principalmente sonolentas. (Eu me incluo neste último tipo). Como o tempo de viagem é em média de 50 minutos, muitos aproveitam e cochilam durante o caminho. Outros aproveitam para colocar a conversa em dia sobre os assuntos do momento: o jogo de futebol, o capítulo da novela, a rotina do trabalho… Outros aproveitam a viagem para jogar carta ou até para fazer uma festa de aniversário. Também existem aqueles que gostam de ler (eu sou uma delas), mas há aqueles que só fazem reclamar da vida. E nesta hora, nada melhor do que ter o seu fone de ouvido e escutar uma música para passar o tempo. Pelo menos é o que eu faço.
        E com isso tudo a viagem de trem vai acontecendo. Algumas estações de trem têm características específicas. Na da Pavuna, por exemplo, como ela faz integração com o Metrô, descem muitos passageiros. Até chegar a Estação de Madureira, da onde se pode ver o Parque Madureira inaugurado recentemente.
          Outra estação de destaque é a de Del Castilho próxima da Catedral Mundial da Fé, do Shopping Nova América e do Supermercado Walmart. Depois, tem a estação do Jacarezinho, onde há pouco tempo podíamos ver usuários de drogas na beirada da linha do trem. Mas atualmente não vejo esta cena por causa da operação de pacificação que ocorreu nesta comunidade.
          Logo em seguida tem a estação de Triagem, onde muitos passageiros também descem e é quando o vagão fica um pouco mais vazio.
          Enfim, a próxima estação é a de São Cristóvão. A estação que eu desço, além de ser uma das maiores, ao redor dela há muitas passagens, como a Quinta da Boa Vista, o Hospital Quinta d’Or, o prédio da Petrobras e mais ao longe o Estádio do Maracanã e a UERJ. 
Fonte: NotíciasR7
          Desço nesta estação. Subo as escadas, passo pelas roletas, atravesso a passarela próxima à Radial Oeste, caminho pela rua Senador Furtado até a Mariz e Barros. Na esquina, fica a lanchonete A Normalista e de manhã sempre tem um vendedor de flores. Quando eu o vejo, tenho a certeza que cheguei ao meu destino.
Fonte: Fulgas
***
A FLOR E A NÁUSEA
Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


Carlos Drummond de Andrade (Rosa do Povo, 1943-1945)

6 de dezembro de 2012

Eu tomo conta do tempo

Viviane da Silva Santos
Preciso pegar o trem das seis. Fonte: Mínimo Ajuste
          Toca o alarme do relógio, já são cinco horas da manhã. É hora de levantar. Tomo meu banho, me arrume e engulo meu desjejum.
          Saio apressada de casa e na rua encontro outras pessoas que também correm contra o tempo. Pessoas que estão saindo de casa para trabalhar, estudar, ir ao médico ou simplesmente para fazer caminhada. Também tenho o hábito de caminhar pelo bairro de Santíssimo nos dias de folga... Durante o exercício físico percebo que muitas ruas surgiram, o número de casas aumentou, mas pouco o governo tem feito pela melhoria do bairro.
          Mas, não é hora de gastar o tempo com devaneios, preciso pegar o trem das seis.
          Chego à estação, está lotada. Percebo a impaciência de alguns passageiros, concluo que o trem de Santa Cruz novamente atrasou. Quando ele chega, os passageiros lutam para conquistar um espaço num dos vagões e, embora nosso amigo Newton já tenha avisado que dois corpos não ocupam o mesmo lugar, sempre tem um engraçadinho tentando o impossível.  É um momento crítico, sem regras ou prioridades, uma vez que todos estão atrasados, sem tempo de esperar um próximo trem.
          A viagem demora a passar. Gasto meu tempo observando, pela janela, os bairros da zona oeste e zona norte. Muitos deles invisíveis para os nossos governantes...
          Pior é quando desvio meu olhar para seu interior, me sinto numa cela superlotada. A diferença é que o tempo que fico "presa" dura no máximo sessenta minutos.
Relógio da Central. Fonte: O Globo
         Enfim, chego ao bairro de São Cristovão. Lá, centenas de pessoas desembarcam e, em poucos segundos, forma-se uma imensa procissão até o final da passarela. Em meio à multidão, observo as pessoas que tentam atravessar o mar de gente. Para aonde elas vão? Por que não seguem a procissão?
          Continuo meu destino, apressada, até chegar à Rua Senador Furtado. Neste trecho, caminho com cautela, desviando dos buracos e das sujeiras jogadas no chão. Entro na Rua Mariz e Barros, pois estudo no centenário Instituto de Educação. Na academia, o tempo é de aprender a aprender. Leituras, debates, seminários. Tudo em prol da aprendizagem.
          As horas passam e o estômago avisa que está na hora do almoço. Então, pressiono o tempo para dar tempo de almoçar com tranquilidade e chegar a tempo no meu trabalho. Embarco no metrô, ele é rápido e me deixa na Cinelândia, que apesar do nome só tem um cinema atualmente. A empresa em que trabalho fica na Rua do Passeio. Esse nome, certamente, foi em homenagem ao primeiro parque da Cidade, o Passeio Público do Rio de Janeiro.
          No trabalho, o tempo também é controlado. É um importante requisito para ser um bom funcionário. É bem verdade que nem sempre a clientela fica satisfeita com a rapidez no atendimento, mas a culpa é do tempo que é curto para atender tantos clientes.
Eis que chega a hora de ir embora, é preciso correr e bater o cartão para dar tempo de embarcar no trem das dezenove horas na Central do Brasil.
          De volta a casa, não pense que a tarefa de tomar conta do tempo acabou! É preciso ter tempo para família. Tempo que é curto, pois preciso levantar do sofá, pegar alguns livros, sentar na frente do computador e dedicar algum tempo para as tarefas escolares.
         Você pensa que é fácil tomar conta do tempo? Saiba que sempre fica algo por fazer ou algum lugar para contemplar durante o dia...
          Ufa! Terminei de estudar. Posso recolher meu material, apagar a luz e ir dormir. 
      O quê? Quem tomará conta do tempo enquanto durmo? Bem, ele ficará livre de mim por algumas horas, mas antes de dormir passei-lhe uma missão: que fique bem quietinho enquanto durmo e me acorde no dia seguinte às cinco horas da manhã.
***
Tempo é... cinema
O Homem Mosca, de Fred C. Newmey e Sam Taylor
(Safety Last!, 1923)
A máquina do tempo, de Georg Pal (The time machine, 1960)
De Volta Para o Futuro 3, de Robert Zemeckis (Back to the future, 1990)
A invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese (Hugo, 2011)

27 de novembro de 2012

Não esqueçam de Olaria

Ariadny Stewart Santos Dias
          Senti o desejo de conhecer um pouco mais sobre os locais que transito todos os dias. Para minha surpresa descobri coisas fascinantes. Óbvio que eu tinha conhecimento da origem do bairro em que resido mas não sabia que a origem do nome "Olaria" deu-se em virtude dos senhores de engenho que mantinham no local inúmeros desses fornos. A primeira olaria foi construída em 1821, no século XIX, por iniciativa da família Ferreira, aproveitando a abundância de barro oriundo do Morro do Alemão, pertencente àquela época a uma única família.
          Eu também não tinha conhecimento do antigo cinema no bairro de Ramos em cujo prédio passo em frente todos os dias. Descobri também a origem dos nomes das ruas do bairro de Bonsucesso. Por volta de 1914, o engenheiro Guilherme Maxwell, que adquirira as terras do antigo Engenho da Pedra, decidiu loteá-las e urbanizá-las. Sob influência da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), decidiu batizar os logradouros recém-abertos com nomes que homenageassem os países aliados contra a Alemanha: a França, a Inglaterra, a Bélgica, a Itália e os Estados Unidos da América. Surgiram assim a praça das Nações e as avenidas Paris, Londres, Bruxelas, Roma e Nova Iorque.
          Ao realizar essas pesquisas, percebi que a história dos bairros vão sendo esquecidas com o passar do tempo, e que as pessoas não têm noção da encantadora história dos lugares da sua cidade. Será que as pessoas que cruzam a avenida Brasil percebem a importância da Fundação Oswaldo Cruz, do seu papel na reforma sanitária que expulsou a epidemia de peste bubônica e da febre amarela da cidade? E de sua importância na produção de vacinas usadas até hoje?
Avenida Brasil em três tempos
1941: construção da avenida Brasil, nas proximidades da atual Fundação Osvaldo Cruz. Foto: FilhosDaDonaLeopoldina
Anos 1960. Ao fundo, o Instituto Osvaldo Cruz. Foto: FilhosDaDonaLeopoldina 

Em 1974, na foto de Marinaldo Jr.
Fonte: onibusbrasileiro
          E a Fábrica de Sabão Português? Será que alguém olha para aquela construção fundada em 1922, que resiste ao tempo vendo o progresso passar por todos os lados? Outras construções também vão sendo esquecidas ao longo da avenida Brasil, prédios enormes cheios de histórias e mitos.
A Fábrica em 1974. Foto: Luiz_D
Time do Olaria, 1971
Em maio de 1956, Pixinguinha recebeu uma homenagem do prefeito Negrão de Lima com uma rua com seu nome: Rua Pixinguinha, no bairro de Olaria, na cidade do Rio de Janeiro, onde morava. Fonte: Instituto Moreira Salles
A cidade cresce mas a sua história não pode morrer com a evolução.

19 de novembro de 2012

Por onde ecoa a dor dos Guaranis Kaiowás

Marcia Fernandes
Impossível ficar neutro com o que vem ocorrendo com os indígenas brasileiros. Só em 2011 foram 56 conflitos (os registrados, pela Comissão Pastoral da Terra) em 16 estados, com 101 indígenas mortos, a maioria líderes de etnias. Há 48 registros de ameaças de morte (dados do CIMI). E o caso mais grave é da etnia Guarani-kaiowá e Nandevá. São 170 índígenas da comunidade de Pyelito Kue Mbrakay, habitantes das margens do rio Hovy que lutam por 2 hectares de terra numa fazenda de 700 hectares no Mato Grosso. 

Sem justiça, passando fome, sem dignidade, sendo ameaçados e mortos (há inclusive testemunho de uma jovem indígena estuprada por pistoleiros), se suicidando por falta de opção de vida já que lhes vem sendo negado o direito de ficar na terra em que seus ancestrais estão enterrados há séculos. Em desespero, anunciaram um suicídio coletivo em uma carta que pediam à Justiça Brasileira para decretar sua morte, dizimação e extinção total.

A carta ganhou o Brasil e o Mundo. E a coisa explodiu, mas a luta dos Guaranis Kaiowás é travada desde 1978. Assim como outras etnias como é o caso dos Pataxós na Bahia. Mas infelizmente as coisas só tomam projeção quando atravessam as fronteiras do país. Aí você pergunta. O que eu posso fazer? O que podemos fazer para ajudar os Guaranis Kaiowás e outras etnias é aproveitar as Redes Sociais para divulgar a falta de dignidade, o abuso, os crimes, a falta de respeitos aos povos originários. Foi na rede que a carta dos Guaranis Kaiowás foi amplamente divulgada e lida. 

Foram a projeção e a força da mídia nos cantos do mundo que mobilizaram a Justiça Brasileira, a secretaria dos Direitos Humanos, o ministro da Justiça a ouvirem o grito dos Kaiowás. E a começarem a fazer o que já deveria ter sido feito há muito tempo. Os que se consideram os donos da terra (fazendeiros) insistem que a terra os pertence. A soja, e a cana de açúcar são mais produtivas e importantes. Afinal, o Mato Grosso é o estado do agronegócio, modelo para o Brasil todo, mas modelo também de violência indígena. Para saírem das terras, os fazendeiros exigem que lhes sejam pago uma indenização pelas benfeitorias e pelo valor que a terra alcançou. E como opção sugerem que seja dado aos indígenas as terras da União que somam 200 mil hectares. Enfim! Quem quer perder? Mas essa é uma guerra perigosa, profunda e só quem perde e morre são os indígenas. Uma guerra que só explodiu para o mundo e fez com que milhares de pessoas pelas Redes se declarassem pelos Guaranis Kaiowás diante do prenúncio de seu suicídio coletivo.

Este artigo tem como objetivo pedir que acompanhemos os acontecimentos e que tenhamos o discernimento de ler as notícias por lentes diferentes das dos meios de comunicação dominantes que mostram e divulgam só o que desejam que saibamos. Ajudemos divulgando em nossas páginas a ferida que sangra nesse momento que é a dos Kaiowás, mas nos coloquemos vigilantes para essa ferida que é muito mais profunda e atinge uma séria questão no Brasil há mais de 500 anos: a questão latifundiária e a demarcação das terras indígenas. Palavras como Território, Territorialidade, Homologação, Reforma, Questão Fundiária e Oliguarquias Rurais ganham maior peso quando acompanhadas de mortes, suicídios, negação de direitos, entre outras questões. A coisa é muito séria. Fiquemos de olhos bem abertos!
Ontem foi o Dia Nacional em Defesa ao povo Guarani Kaiowá. Em várias cidades do Brasil aconteceram protestos e abraços ao povo guarani. Participei da passeata com o grupo da Aldeia Maracanã que reivindica a não demolição do Antigo Museu do Índio e denuncia as demolições no entorno do Maracanã, como a Escola Municipal Friedenreich e o Parque Aquático Julio Delamare. Que governo é esse que não respeita a Escola, o Esporte e a Cultura Indígena como direitos dos cidadãos?

17 de novembro de 2012

O espelho de Jafar e o retorno à casa

          No filme "O espelho"  de Jafar Panahi, o espectador presencia a reviravolta no roteiro que conta a epopeia de uma menina, cuja mãe não apareceu na saída da escola, em sua tentativa de voltar sozinha para a casa. O inesperado acontece quando a pequena atriz, cansada de "brincar de ser atriz", resolve definitivamente parar de atuar. Sua decisão é irrevogável e inegociável: quer voltar para a sua casa. Recusa-se a conversar com o diretor e, aos berros para uma mulher que faz parte da equipe e parece ser a responsável por ela no set de filmagens, afirma conhecer o caminho de volta e querer ir embora, sozinha. Enquanto isso, tudo está sendo filmado por uma câmera de prontidão, em virtude provavelmente da realização do making of do filme. O toque de ousadia do cineasta e de sua equipe é dado pela decisão de deixar a menina ir, acompanhando-a de longe, sempre filmando-a, em seu retorno à casa.
          Como ela sai intempestivamente do set, pondo-se a caminhar com passos firmes, leva um microfone de lapela, e esse registra os sons que a rodeiam e grava os diálogos que ela trava com transeuntes e com um guarda. São conversas, vozes diversas, ruídos da cidade de Teerã, em meio a um trânsito caótico, avenidas e largas ruas de mão dupla, lotadas de gente e de carros, de ônibus e de veículos de lotação. Custa-se a crer que o que então passamos a observar esteja mesmo sendo documentado em tempo real. A precariedade dos recursos, no entanto, reitera essa perspectiva. Aquilo que vemos está acontecendo "de verdade". Em alguns ângulos, em diversos momentos, perde-se a menina de vista, por exemplo.
         De fato, a pequena atriz enfrenta a cidade de modo quase idêntico à personagem que interpretava e que assistíamos nas sequências iniciais do filme. Há cenas praticamente iguais, como a da cabine telefônica, dentro da qual a menina tem de fazer uma escalada para chegar até o telefone pendurado no alto, e com grande esforço, equilibrando-se, conseguir ligar para a sua casa, a fim de tirar dúvidas quanto ao itinerário com o irmão, já que a mãe não se encontra. Na ficção e na realidade, os adultos na rua comportam-se ambiguamente. Há manifestações de desvelo e preocupação com a menina perdida, mas também de pressa em despacha-la e de indiferença.
          De lado de cá, nós público ocidental estranhamos toda a situação. A língua, as roupas, as relações adulto-criança, criança-cidade, reforçam essa sensação de estranhamento. Por um lado, parece incrível que se deixe uma criança caminhar sozinha no meio de tantos perigos reforçados pela falta de sinais de trânsito, de travessias de ruas super movimentadas, de homens, sejam eles motoristas, transeuntes, guardas ou vendedores ambulantes; por outro, a situação parece algo familiar, já que também existem inúmeras crianças soltas na cidade do lado de cá. Em nossos pensamentos, assalta a desconfiança de que em cada homem com quem a menina conversa possa existir um pedófilo, um bandido.
       Mas não, nada desse teor acontece. O sofrimento da menina vem mesmo do medo, da insegurança, da sensação de solidão e abandono, inerentes à cidade, tal como ela normalmente funciona. A questão importante em toda essa história não reside portanto na narração de acontecimentos espetaculares, que chamariam a atenção da mídia, mas da situação especular que se apresenta sem premeditação e de modo gratuito no cotidiano.
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Se nos voltarmos então para uma outra situação os reflexos entre as imagens projetadas por um eu-branco e um ele-índio/negro  --> o que é possível concluir? Coloquemo-nos como aquele que acompanha os movimentos de um cidadão singular, morador da cidade do Rio de Janeiro, sobre o qual ficcionamos uma vida cheia de obstáculos, aflitivos e sofridos.

A reviravolta acontece quando nos apercebemos  que, no esforço de imaginar esse outro no contexto urbano, dimensionado para a perpetuação de uma cultura que o ignora, nos abrimos para a escuta do que a imagem diz,  e para a realização do imaginário.

Porém, não tendo sido brindada com uma situação similar ao do diretor iraniano (ou talvez não tendo a acuidade para percebe-la), ou seja, não podendo comprovar a provável identidade entre o imaginado e o vivido,  registro momentos em que a oportunidade pode surgir, na interação com cidadãos singulares em seu contexto cotidiano.

Reconheço-me na imagem de uma mulher frente ao espelho à procura de um caminho, a refletir um apanhado de desejos flutuantes, indefiníveis e múltiplos, referentes à possibilidade de mostrar uma outra cultura, um outro olhar, outros valores, sentimentos, percepções.

Essa mulher precisa deixar de se limitar em ser um corpo dado, acabado e padronizado por uma cultura que invisibiliza cidadãos indesejáveis, para ser um espelho de prontidão, como uma câmera pronta para filmar o inesperado, a reviravolta. Ou seja; depois da recusa de continuar sendo uma atriz e de representar um roteiro pré-definido, a mulher retorna em direção à casa.

Onde fica essa casa? Na linguagem, que aparece pelo andar, falar, dizer. E no que se aposta afinal? Que essa linguagem confirme a presença tangível do que se imagina, ou pelo menos, que ela confirme a força da imaginação. Parodiando Descartes, ao imaginar, existe-se (sob uma multiplicidade de modos de ser).
Indiara com sua maquiagem e figurino de parteira, pronta para a gravação da novela Uga-uga
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A questão que se impõe é o que se imagina agora. O desafio está em imaginar, por exemplo, uma cidade acolhedora não só de desejos de governantes, comerciantes, investidores, motoristas e consumidores. Tal qual a menina do filme "O espelho", de Panahi – que, meio perdida na cidade e com base em detalhes provenientes de lembranças, fragmentos de sua memória dos lugares, procura sua casa – sabemos que para existir um recanto bom de habitar devemos lembrar dele, em meio ao caos onde circulamos, na certeza de que o natural é isso mesmo: as ruas tomadas por carros, ocupadas por trabalhadores ou desocupados, excluídos a bem da continuidade do fluxo, do espetáculo.
Bia Albernaz

12 de novembro de 2012

Ser índio no século XXI

Mônica Vallim



Basta ser filho de indígenas e manter-se longe da civilização para ser índio? Ou será preciso aculturar-se para garantir o direito dos povos originários?
Na aproximação com a Aldeia Maracanã, percebe-se que ser índio está além do complexo e amplo sentido de sentir-se ou não um índio no espaço citadino. E tanto pode significar orgulho, quanto distanciamento de sê-lo.

Muitos brasileiros indubitavelmente possuem em sua árvore genealógica resquício de sangue indígena, misturado ao europeu talvez ao africano, afinal, foi assim que se constituiu o povo brasileiro desde a invasão portuguesa em 1500. Embora alguns não tenham sequer noção exata de suas etnias ancestrais, pois a pele branqueou, a história passou a ser o que lhes contaram e o que aprenderam nos livros didáticos – seria por vergonha ou falso orgulho?

A estatura média brasileira também aumentou nas últimas décadas e após sucessivas miscigenações restou o orgulho do sangue europeu nas terras tupiniquins. Para a maioria dos que se declaram brancos, o índio urbano não tem o menor sentido ou valor cultural, principalmente frente aos interesses econômicos e políticos da Copa de 2014.

Mas Mayra, uma indiazinha urbana de uns 12 anos dá mostras pelas redes sociais seu orgulho de ser indígena, fruto de um amor que seria proibido séculos atrás entre as etnias Krikati (mãe) e Guajajara (pai).
Exibe com igual orgulho seu gosto musical juvenil, midiático e o grafismo de jenipapo e carvão da etnia Guajajara, que gera curiosidade aos seus colegas na escola.

   


Sua participação em uma cerimonia da Aldeia Maracanã – “Etnia Guajajara e Etnia Krikatí - DIA DA CONTAÇÃO DE HISTÓRIA 10 SETEMBRO 2011” – está inclusive disponível no youtube e comentada em blog, celebra publicamente a sua primeira menstruação. Mas ela não se mostra constrangida, ou, como diriam os mais antigos, incomodada.
Com riso farto ostenta o seu uniforme de estudante do Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro na Oca do Antigo Museu do Índio. Participa da luta para que naquele pedaço de terra o prédio em ruínas localizado ao lado do Maracanã, seja oficialmente reconhecido como um Centro Cultural Indígena que contemple as várias etnias indígenas e quem sabe ali nasça a primeira universidade indígena do Brasil.

A jovem menina moça parece ser o colóquio aberto e perene entre as culturas indígena e brasileira no contexto urbano. Acultura-se com consciência de sua identidade, direitos, deveres, tradições e língua.

“O direito à cidade manifesta-se como forma superior dos direitos: direito à liberdade, à individualização na socialização, ao habitá-la e morar. O direito à obra (à atividade participante) e o direito à apropriação (bem distinto do direito à propriedade) estão implícitos se no direito à cidade”. (Lefebvre, 1968, p.155)

Espera-se ao término desse breve relato ter contribuído para dar visibilidade aos índios urbanos praticamente sitiados a cada avanço das obras de revitalização do entorno do Maracanã, e seu ideal de defender naquele espaço a luta indígena para a restauração de um patrimônio histórico centenário que é  de todos nós brasileiros. Foi através da resistência da Aldeia Maracanã que nesse pequeno espaço/tempo criou um centro cultural indígena em um não lugar urbano e por meio da obstinação indígena que o prédio do Antigo Museu do Índio ainda se mantém em pé. 

Preservem-se através dos registros online as ações que contribuíram de alguma forma para o cuidado da memória histórica e cultural que apesar da precariedade e  descaso com o bem público ainda persiste como uma resistência política e organizada naquele espaço/território dando voz aos anseios dos povos originários do Brasil e que por conta dessa ocupação pacífica e legal ainda pode ser visitado todos os sábados por escolas e/ou qualquer pessoa interessada na variedade multiétnica, multilinguistica e multicultural de nossos indígenas.