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24 de outubro de 2013

Guia dos museus brasileiros

O Guia dos Museus Brasileiros já está disponível para consulta e download. Elaborado pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram/Ministério da Cultura), o guia traz dados como ano de criação, situação atual, endereço, horário de funcionamento, tipologia de acervo, acessibilidade, infraestrutura para  recebimento de turistas estrangeiros e natureza administrativa de mais de 3 mil museus já mapeados pelo Ibram em território nacional. Aqui, publicamos o material dividido por região, para facilitar o acesso. Clique para acessar:

Museus da Região Norte
Museus da Região Nordeste
Museus da Região Centro-Oeste
Museus da Região Sudeste
Museus da Região Sul
Museus extintos, incorporados e renomeados, museus em implantação e museus virtuais
Constam da publicação um total de 3.118 museus, incluindo 23 museus virtuais.

23 de outubro de 2013

Lições de etnografia a partir de cinco documentários


Tão difícil desenhar uma paisagem e, no entanto, há quem o faça... Tento desenhar com palavras e às vezes com fotos, imagens que nascem de um enquadramento. Tentarei aqui compor um quadro. Estou em frente ao Instituto de Geociências da Universidade de Vila Real. Infiltrei-me como ouvinte por um dia, isto é, paguei por isso e caro, devo dizer. Minha intenção é simplesmente assistir à I Mostra de Filme Etnográfico. Havia tentado inscrever um curta-metragem (Agora você é índio) realizado com alunos e professores do Instituto de Educação e indígenas da Aldeia Maracanã sobre o choque cultural dos não indígenas quando convivem com esse outro que genericamente chamamos de índio. O filme não foi aceito. Como eu iria de qualquer maneira para Portugal e para o norte justamente, infiltrei-me, atiçada pelo desejo de saber o que faz com que um filme seja classificado como etnográfico.
Lição 1
Depois de assistir o primeiro filme do dia – Aqui tem gente (18’03”, 2013), de Leonor Real – coincidentemente também sobre uma ocupação (tal qual os indígenas no prédio abandonado do antigo Museu do Índio no bairro do Maracanã, no Rio de Janeiro), ensaiei uma primeira conclusão a respeito dessa designação – etnográfico. Pareceu-me que um etnógrafo assume o compromisso de descrever realisticamente uma situação. Acho até que a etnografia (irmã mais nova ou um mero instrumento da Antropologia?) surgiu no mesmo período do realismo e do naturalismo como movimentos literários já que teria como premissa a descrição. No entanto, seria possível também ao etnógrafo recorrer à observação participante, pela qual se permitiria a identificação com os sujeitos observados, tal qual um narrador que para ser mais fiel aos acontecimentos procurar assumir a perspectiva de um ou mais personagens.
Em relação ao Aqui tem gente,  o documentário acompanhava o processo de desocupação de uma pequena favela habitada por negros vindos das antigas colônias portuguesas na África e por ciganos, grupos momentaneamente identificados pela grave situação que enfrentavam. Mas a personagem central era Rita, a própria observadora, apresentada como uma ativista, uma liderança mediadora entre o mundo dos brancos e o dos desgraçados. (Ela seria aquilo que Gramsci classificou como intelectual orgânico.) A câmera apenas presenciava as cenas. Rita, por recusar o papel de heroína, não desempenhava o papel de uma personagem clássica, nem moderna tampouco, por não expor a sua subjetividade e seus conflitos. E esta foi a lição 1.
Lição 2
Quanto ao vídeo seguinte, A minha família na luz (18', 2011), de Fabienne Wateau – um curta-metragem que brinca com o intrincado sistema de parentesco exposto por membros de uma família, uma grande família em uma pequena cidade, a pedidos de uma jovem de 15 anos – a lição possível é: filme etnográfico tem de ser feito por antropólogo (ou cientista social). Por conhecer a teoria, o tema, a vibração do antropólogo pela estrutura do parentesco, a diretora pôde brincar com a questão. No entanto, durante o debate final, Fabienne afirmou que sua intenção não era fazer um filme sobre o tema, nem pretendia ser fiel à teoria, mas simplesmente (e aí vem a etnografia) mostrar algo que se fez evidente em sua aproximação com os moradores da tal cidadezinha. Sua intenção era, ao conhecer o parentesco de uma determinada família, estabelecer uma rede de contatos e facilitar a sua pesquisa. A entrega do papel de condutora à adolescente Vânia foi realmente inteligente. Como moradora da localidade, sabedora de todos os códigos de abordagem e conhecedora de todos os endereços ela era a mediadora ideal. Podia levar a pesquisadora a todas as casas de seus muitos parentes, abrindo-lhe as portas da intrincada rede de informantes com a seguinte pergunta: “a senhora aqui quer saber o que a senhora (ou senhor) é minha (ou meu). Por que somos parentes? Qual o nosso grau de parentesco?” Bem interessante e simples. Em geral, os entrevistados conheciam até a terceira geração e, em resposta à menina, desfiavam os elos da parentalha, com frases como “sou filho do seu tio-avô então sou seu primo de segundo grau” (era mais complicado do que isso). Impossível acompanhar a lógica estruturante do parentesco com suas diferentes designações e conclusões traduzidas pelos termos apropriados. O resultado, porém, era divertido. Fazia como um bordado com a língua e com a linguagem armada pelas relações de parentesco – tema muito caro aos antropólogos.
E esta foi a lição 2: um filme etnográfico se acerca de temas da antropologia de um modo mais ou menos focado, isto é, abre o leque para temas correlatos ou centra-se em uma questão muito específica, e – tal qual o primeiro filme – de maneira isenta, eminentemente descritiva. Assim, interpretações são possíveis mas a partir de uma exposição direta, com o mínimo de ambiguidades.
Lição 3
Do terceiro filme, Voices from the tundra – the last of the yukagirs (66', 2013), de Edwin Trommlen, a lição que fica pode ser resumida em duas palavras: “pressa nenhuma”. Mas poderia ser também “incrível empenho” ou “esforço descomunal”. O filme acompanha a viagem de uma linguista, Cecília Odé, uma holandesa com mais de 45 anos de estudos das línguas eslavas que sofre de um câncer nos pulmões e que aproveita um período de melhora para revisitar os yukagirs na gélida tundra. Com a incrível paisagem toda branca como pano-de-fundo e sob uma temperatura de cerca de menos de 20 graus, presencia-se um tipo de vida em extinção, levada por falantes de uma língua que por muito tempo foi proibida pelo governo soviético. A relação de Cecília Odé –  a narradora do filme – com os yukagirs é profundamente amorosa. Não se nota de jeito nenhum qualquer distanciamento entre a etnógrafa e a cultura pesquisada. As pessoas que nela nasceram são mostradas como co-pesquisadoras, sendo Cecília aquela que faz a ponte entre eles e os fundos que custeiam a publicação de livros e a edição de CDs em sua língua, de modo a prestar um serviço de preservação e de divulgação não só em outros países como no próprio lugar onde canções, hábitos e vestes tradicionais tendem a desaparecer. (Estamos pois diante de uma variante mais cultural do que política do já citado intelectual orgânico gramsciano.) O filme não tem pressa nenhuma para acabar. Toma um pouco mais de uma hora e o público que o assistia, muito pequeno, como uma minoria perdida no meio da agitação de um congresso com cerca de 500 inscritos, mingua-se ao ponto de, no final, contar apenas com umas dez pessoas na plateia. Mas isso não parece importante, as imagens são bonitas e envolventes, com muitas renas, muitas vestes coloridas e sobrepostas, faces queimadas pelo gelo, risos, cantos e afagos, ainda que a narradora de onde sobressai toda essa riqueza tivesse pele clara e olhos azuis. Ela parece ser a personagem principal. Será isso uma distorção, uma contingência (já que o filme se dirige a um público mais próximo ao que ela representa) ou a representação de um exemplo de coragem e desprendimento?
Antes das lições finais
Ainda nesse dia, à noite, a fim de aproveitar até o final minha precária participação como ouvinte dessa Mostra, fui a uma sessão na qual dois curtas seriam exibidos num teatro um pouco afastado do centro de Vila Real. O lugar, recém-construído, exalava a nada. Era mais um desses prédios feitos com muito dinheiro, com espaços amplos a perder de vista onde não se vê viva alma. Tanto que, ao chegar ao mesmo tempo que um jovem e duas moças, parecíamos sermos os únicos que optaram por abandonar a agitação dos antropólogos em restaurantes e em hotéis da cidade para assistirmos à sessão programada. Mas não, ao entrarmos na sala de exibição, outras pessoas já estavam lá, ouvindo um artista que falava sobre o modo de fazer do artista quando em relação com uma comunidade, isto é, quando uma comunidade é o seu foco. Sua fala, que introduzia a exibição de um curta performático com uma figura de mulher  fantasmagórica a vagar por uma das muitas aldeias desertificadas em Portugal, estava no final. A atmosfera do filme era sinistra. De fato, exalava dela um abandono e ecos de um passado extinto, tristemente extinto. Na última cena, no entanto, a mulher que antes aparecia o tempo todo envolta em uma capa negra, aparecia subindo degraus no meio das ruínas, ascendendo rumo a um lugar inexistente, toda vestida de branco. Ao acender as luzes, o artista apresentou-se novamente para responder possíveis perguntas, mas o silêncio foi fatal. Creio que a plateia estava preparada apenas para ver filmes etnográficos. E aquele era um filme artístico... Um pouco constrangido, o artista escapou rapidamente e então eu soube – ao apresentarem a exibição dos dois curtas programados – que aqueles jovens com os quais entrei e que se sentaram ao meu lado, eram os diretores dos filmes.
Lições 4 e 5
O primeiro deles, Este é o meu cabelo (2012), de Hellington Vieira, durava apenas onze minutos. Tinha sido o trabalho de conclusão de um mestrado na Universidade Nova de Lisboa. Parece que há ali muita pesquisa em antropologia, em cultura, em literatura tradicional. Então, quando o filme começou, a impressão que me deu é que a sua linguagem se assemelhava a de um filme de ficção. É importante frisar o verbo “se assemelhava” aqui, pois, posso estar enganada, mas um filme etnográfico mantém, em relação a essa linguagem, uma distância estratégica; seu compromisso maior é para com a ciência, ainda que ela possa ser oxigenada por um fazer no qual as fronteiras entre sujeitos e objetos tenham sido borradas pelo reconhecimento de um protagonismo daqueles que antes eram vistos como objetos de estudo e da necessidade de constante questionamento e deslocamento das fronteiras onde os pesquisadores costumavam se colocar em situação de suposta neutralidade. O filme Este é o meu cabelo não tem narração. A personagem principal, uma moça da Guiné-Bissau, estudante em Coimbra, aparece na tela a esquentar água, a lavar roupa, a estendê-la no varal. Ela é magra, negra e sua roupa não traz nenhum traço distintivo. Então, é claro, a observação recai sobre o seu cabelo. Aquele era o seu cabelo: curto, alisado, um pouco arrepiado, sem estilo definido. De vez em quando, ela se encaminhava até a câmera e a endireitava. Depois, durante o debate, ficamos sabendo que a moça trabalhava num salão de cabelereiro e que o diretor, por não poder filmar lá dentro, havia emprestado a câmera para que ela mesma fizesse a gravação. Contudo, ela escolheu se filmar na lida doméstica. Intercala-se a essa cena, uma outra que registra a chegada da moça em um pátio onde ela irá colocar apliques de cachos louros e castanhos dourados. Enquanto ela está lá sob os cuidados de uma e depois de mais uma moça, ambas também negras, a câmera grava o seu depoimento – quem é ela, quais os seus planos, entremeados de comentários acerca da sua recusa em relação à cultura europeia. Para namorar, por exemplo, só aceita negros pois com brancos o clima parece ser, segundo suas palavras, de um curso por correspondência. Enquanto isso, esticando-se de lá, puxando-se de cá, aos fios negros de seu cabelo vão sendo enrolados os cachos de fios de seda. Ouve-se então o comentário central de seu depoimento – com o tempo, ela tinha percebido que jamais seus cabelos seriam lisos como ela acreditava poderem ser um dia. Enfim, reconhecia, aquele cabelo arrepiado que ela procurava ocultar é que era o seu cabelo.
Sem querer apreender por ora uma lição deste filme, adianto aquele que foi o último filme do dia e da minha participação como ouvinte nas plenárias promovidas ao final das sessões:  Apanhados na rede (58'10", 2012), de Amaya Sumpsi. Esse aproxima-se em alguns pontos com o dos yukagirs, comentado anteriormente. A narração, antes evitada pela diretora, de acordo com depoimento seu durante o debate no final, acabou sendo feita por ela mesma, e em espanhol, sua língua, apesar do filme se passar em uma pequena baía, Porto Formoso, nos Açores. Nada de distanciamento e também pressa nenhuma. Parece que sua primeira aproximação com o lugar e com pessoas da comunidade pesqueira, quase que exclusivamente masculina, se deu em 2009 ou 2010. Em quase uma hora, o filme testemunha as mudanças na atividade pesqueira mas sobretudo o que permanece e subjaz na dinâmica de transformação da paisagem em relação à prática dos pescadores. O clima é poético, a voz da narração, pela entonação e pelo texto, parece segredar a importância dessa convivência principalmente para a diretora do filme. Desfilam personagens, depoimentos, pacientemente colhidos e editados, tomados e obtidos graças a uma relação de afeto estabelecida entre a pesquisadora, se assim se pode chamar a diretora, e os pesquisados que, na verdade, são os condutores do roteiro que, na verdade, é ditado pelo curso da própria vida em sua realidade cotidiana ao longo de dois anos. Amaya, sabe-se depois, não é formada em Ciências Sociais. Sua formação é em Cinema, mas o que a fez ingressar num mestrado na área de Antropologia foi o fato de estar perdida entre muitas horas de gravação, sem saber como costurá-las e finalizar o seu filme. Por sua vez, Hellington diz que também sem saber como transformar suas ideias em um filme, recebeu de sua orientadora a indicação de que o concebesse como se ele fosse um filme de ficção. A lição final, portanto, refere-se a essa difícil tessitura entre a linguagem etnográfica tradicional e aquela que se vale dos ganhos do cinema de ficção. Ou seja: todos gostamos de histórias, personagens, conflitos e resolução de conflitos. No caso desses dois filmes, há também um óbvio aporte do cinema de arte, principalmente o primeiro (já que Hellington diz ter se inspirado no último filme de David Lynch, “Inland Empire”), com enquadramentos, modos de narrativa  e edições inesperados  que mostram mas não explicam, o que contribui para que o clima de abertura e de múltipla interpretação da poética no cinema possa ser absorvida também pelo filme etnográfico.
Possível conclusão
Talvez, e é bom frisar essa palavra, talvez o que defina esse tipo de filme, em oposição ao filme de ficção, seja a origem das imagens. Assim, num filme etnográfico, o imaginário a ser focado – apesar do pesquisador poder se permitir uma aproximação mais forte e afetiva ao longo do processo – deve vir de um outro, de uma outra cultura, de um outro personagem, de um outro lugar, de uma outra língua. Ao diretor caberia apenas testemunhar esse outro que se desvela, seja assumindo-se como ativista, pesquisador, estudioso, diretor de arte ou mediador, a fim de que esse outro possa ser o mais inteiro possível em sua alteridade. 
Bia Albernaz
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"Ma parenté au village" (O filme de Fabienne Wateau está acessível no site do CNRS - Centre National de la Recherche Scientifique)
O trailer de Voices from the tundra – the last of the yukagirs encontra-se no You Tube - http://youtu.be/KfUjw15oyQE                                                                         

21 de outubro de 2013

3 de outubro de 2013

Professores na rua - corpos como quadros-negros

          Sou professora e dou aulas no Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro. Um Instituto que forma professores. Por isso, não posso ficar calada nesse momento, quando professores da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro são surrados por Policiais Militares, sancionados pelo Prefeito da cidade e barrados na Câmara dos Vereadores. Considerando, em primeiro lugar, que o meu foco não é a escola mas o que se aprende nas ruas, aproveito para comentar um pouco da minha experiência como professora formadora de professores.
          O que me faz escrever aqui também foi a sensação, ao terminar de ler a coluna da Cora Rónai na edição de hoje de O Globo (o que fazer? Não há diários confiáveis no Rio e essa leitura facilita a conversa comum), dois dias depois do sufoco e surra que os professores receberam, culminando com a aprovação de um plano de carreira concebido segundo os moldes do autoritarismo político, tradição brasileira, ou seja, sem consulta aos maiores interessados.
          Cora Rónai fez uma crônica muito sensata, clara e engajada. Está com os professores e não abre. O jornal, aliás, ainda que a primeira página, como sempre equivocada em seu foco, lastime sobretudo os estragos materiais em guaritas de ônibus e agências bancárias, decorrentes da batalha campal ocorrida no centro do Rio, está salpicado de acordes dissonantes que conseguem enxergar a tragédia de uma cidade (de um país, de uma República) na qual professores que reivindicam melhorias em suas condições de trabalho sejam alvo de balas de borracha, ameaças com armas de verdade, spray de pimenta nos olhos e outros artefatos paramilitares.
          Mas não quero falar do que aconteceu naquele dia especificamente. Há inúmeros testemunhos impressionantes disponíveis na rede. Preciso dizer dessa minha experiência como professora que forma professores a partir de um pensamento que me ocorreu ao terminar de ler aquela coluna no jornal: quem, hoje, escolhe ser professor não o faz movido pelo desejo de ser bem-sucedido, no que se refere à noção comum de subir na vida pelo ingresso em uma carreira segura e reconhecida socialmente. Em geral, e isso fica patente nas rodadas iniciais de conversa com os calouros do curso, quando apresentam suas motivações ao escolher a Pedagogia, o tom é militante, às vezes romântico, às vezes retórico, mas os alunos de algum modo pressentem e assumem como um pré-requisito que, para serem professores e exercerem com integridade esse papel, terão de lutar, remar contra a corrente. São idealistas e ao mesmo tempo materialistas históricos. Em suas trajetórias acadêmicas, uns se manterão cindidos e, mais ou menos conscientes, alimentarão o monstro. Outros, se fortalecerão com leituras, conceitos e capacidade de articulação entre a sua experiência nos aparelhos ideológicos do Estado (velho jargão marxista) e os seus desejos, aprendendo a argumentar e a manejar as armas acessíveis como parte de um coletivo.
          Durante essa campanha reivindicante mais recente, muitos dos alunos formados no Instituto estiveram presentes, já como professores. Seu perfil batalhador, já então forjado pela crítica às práticas privatizantes das redes públicas de educação, fez com que eles não hesitassem em vestir a camisa dos manifestantes e que fossem às ruas e às assembleias, engrossando o levante. Por inúmeras vezes, curti no Facebook as fotos e impressões postadas por eles, esfuziantes no exercício desse papel perfurante e histórico.
          O sentimento de fazer parte da História como elo dessa corrente se avivou em mim. A satisfação de ter contribuído com um mínimo que seja nessa luta contra o protagonismo de uma classe político-governamental apodrecida, doentia pela sua recusa e ao mesmo tempo pelo usufruto da coisa pública, me dá ânimo para apresentar alguns motivos que corroboram com a continuidade desse combate:
          - a exploração do trabalho de estagiários em sala de aula no ensino básico das escolas públicas, em um programa do governo Paes, com a secretária Costim, que - ao invés de investirem em seu corpo docente - o substitui sutilmente por alunos em formação e de passagem, com a conivência de muitos professores e especialistas de educação;
          - a enxurrada de leis politicamente corretas sem respaldo na realidade a fim de que elas possam ser aplicadas a contento como, por exemplo, aquela que obriga professores a inserirem no currículo escolar elementos da cultura e da história dos indígenas no Brasil sem o menor preparo para isso, resultando, no mais das vezes, em folclorização, erros crassos, reducionismos e mais preconceitos;
          - o acúmulo de funções paraeducativas na lida diária do professor a fim de substituir a família e suprir carências sociais, afetivas e alimentares, e a diminuir o apartheid cultural, provenientes de um sistema político paternalista que concede benefícios em caráter pontual e de forma manipuladora, sem assimilá-los como direitos;
          - o descompasso entre o saber escolar e o do resto do mundo, o que torna a frequência diária e obrigatória naquele aparelho chamado escola um suplício tanto para alunos (principalmente os adolescentes) quanto para os professores instados a preparar os estudantes e a si próprios para provas e avaliações como atividades-fim;
      - a incongruência entre o exercício docente e o tempo e os recursos disponíveis para a continuidade de seus estudos, cronificando o anacronismo dos professores e da escola, e frustrando-os sobretudo em seu desejo de ensinar pois, já é mais do que sabido, só ensina quem aprende;
          - o desprezo, a sensação de abandono, o desrespeito, as palavras são muitas mas ainda assim fracas diante da tentativa de definir o sentimento de perplexidade que nos assalta ao adentrar a maioria dos prédios escolares, pela sua sujeira, as camadas de pó sobre paredes de cor de burro-quando-foge, as bibliotecas às moscas, os babadinhos insistentes, o comércio complementar, as secretarias abarrotadas de papel, os arquivos mortos, enfim a falta de cuidado como lição constante e subliminar concedida a todos os usuários da escola.

          Assim termino esse depoimento feito antes que o vento varra a lembrança de um dia fatídico em que os professores foram às ruas para brigar, fazendo dos seus corpos o quadro-negro.
Bia Albernaz 
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Para ler a crônica da Córa Ronai (Brasil, educação zero) clique aqui.