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19 de junho de 2014

Visita ao Museu da Maré

Cristina Muniz
Trago aqui um pequeno comentário sobre uma tocante visita ao Museu da Maré. Na ocasião, pude conferir a exposição temporária "Som da Maré".
O blog de autoria de Pedro Rebelo descreve o projeto na íntegra. Para visitá-lo, clique AQUI.
Por um labirinto cenográfico, caminhamos ouvindo jovens moradores nos contarem a história deste lugar, hoje um complexo de favelas chamado Maré. Assim, o labirinto cria, no espaço, aquilo que, no tempo, é a lembrança.
Passeamos pelo incrível cenário, descortinamos o seu passado, ao mesmo tempo percebendo os signos premonitórios de um novo futuro.

Ver o trabalho dos guias locais é vislumbrar nas ruínas dessa história, como diria Walter Benjamin, outras leituras do que poderia ter sido e não foi. Para ele, a democracia requer memória histórica, aquela possível de ser revisitada e contestada. E foi isso que senti vendo ali aqueles jovens narrarem a história cultural de muita luta de sua comunidade.

Com sua exposição permanente “Os Tempos da Maré”, o Museu nos provoca uma experiência sensível e profunda. Doze tempos formam um grande calendário: Água, Migração, Casa, Trabalho, Feira, Festa, Fé, Cotidiano, Criança, Medo e Futuro.

Do TEMPO DE CRIANÇA, trago um fragmento que muito nos interessa para pensar a cultura urbana moderna que tira as crianças da rua, tida como lugar perigoso! Esta concepção presente em inúmeros projetos sociais da comunidade aparece assim problematizada no espaço das crianças:
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De muito fácil acesso, o Museu tem um site com todas as informações disponíveis para visitação e lindas imagens, inclusive uma exibição virtual de "Os 12 tempos da Maré". Dê um pulo lá. Basta clicar AQUI.

9 de junho de 2014

Ensinamentos de Janusz Korczak, o "velho doutor": amor à criança e horror à guerra


Tatiane Souza
 O RESPEITO AO DIREITO À INFÂNCIA 
Ainda nos dias de hoje, mesmo na ausência de guerras mundiais, negligenciamos os direitos das crianças viverem e conviverem com qualidade a História, a Educação, o Lazer, a Saúde...
Meu primeiro contato com os preceitos de Janusz Korczak foi no curso de extensão em Pedagogia Social, oferecido pelo Projeto PIPAS-UFF, em uma palestra da professora Monica Picanço, no dia 24 de abril de 2014. Suas ideias permanecem atuais e conhecê-las só nos reforça a certeza da necessidade de um maior cuidado e afeto para com essa fase primária. Assim como Rousseau e Pestalozzi, Korczak via o amor como primordial, desconfiando da exclusividade da razão no desenvolvimento humano.
Médico e pedagogo, seu verdadeiro nome era Henryk Goldszmit, mas adotou o pseudônimo de Janusz Korkzac. Pregava o respeito a todos, independente da idade. Para ele, as crianças não iriam se tornar pessoas no futuro, por já serem pessoas.  Assim como a centralidade do amor, a autogestão da criança fazia parte de sua proposta pedagógica, que também se valia do método de observação empregado na medicina. Humanista e espiritualista, defendia o desenvolvimento da autonomia da criança.
Nasceu em 22 de julho de 1878, em Varsóvia, Polônia. Além de médico pediatra e pedagogo, foi radialista e activista social. Judeu, foi assassinado em 05 de agosto de 1942, em Treblinka.
Em 1901, começou a dar aulas se aprofundando na teoria de Pestalozzi. Criou uma metodologia de ensino a partir de uma “caixa de surpresas”, da qual tirava objetos que contextualizava através de diversos conteúdos e aplicações. Em 1911, começou a buscar mais iuntensamente uma pedagogia que, além de ajudar, transformasse a vida das crianças.
            Em1912, inaugurou o orfanato “Lar das crianças”, depois conhecido como “República das Crianças”, cuja filosofia era de defesa de uma sociedade compreensiva e respeitosa para com as crianças. Essas, por fazerem parte do processo de transformação social, não poderiam ser consideradas como sujeitos passivos. Assim, para Korczak, olhar a criança é ver suas possibilidades, e não aceitar que elas sejam coibidas em seu ser ou fazer. 
Como uma das precursoras da escola democrática e pelo seu respeito às crianças, sua pedagogia serviu de base para a “Declaração dos Direitos das Crianças” e posteriormente para a “Convenção dos Direitos da Criança”.
Janusz Korczak não era um teórico frio e distante, mas um homem que optou radicalmente por suas crianças. Morreu numa câmara de gás, pois não aceitou um salvo-conduto de Hitler, que poupava a sua vida. Preferiu permanecer unido a 200 crianças do seu orfanato, que foram despejadas e depois condenadas à morte pelo ditador nazista.
Veja o filme "As 200 Crianças do Doutor Korczak” (1990), com direção de Andrzej Wajda. Nele, você verá o contraste entre os princípios de justiça dentro do orfanato e a prática da injustiça fora da instituição. 
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Nas práticas que orientam a proposta pedagógia de Janusz Korczak:
1.     A criança é um sujeito.
2.     A centralidade é no amor.
3.     Na autogestão pedagógica, o adulto apenas auxilia a criança na busca diária de crescimento, amadurecimento e autoconhecimento.
A organização, no “Lar das Crianças”, depois “República das Crianças”, conta com:
·      Parlamento
·      Tribunal de Arbitragem
·      Comissão Legislativa
·      Comitês
·      Caixas de Cartas (onde eram colocadas sugestões, dúvidas, reclamações, e o autor poderia ficar anônimo se quisesse)
·      Jornais
·      Mural
·      Plebiscito 
Os princípios norteadores de sua teoria são:
1.     Aprendizagem das disciplinas com base nas práticas democráticas (simulação de tribunais, por exemplo)
2.     Complementação trabalho intelectual e trabalho manual (todos exerciam os cuidados com a escola)
3.     Aprendizagem pela explicitação, consideração e resolução dos conflitos
4.     Admissão da punição como um valor educativo apenas quando promotora de conscientização
5.     Consideração da educação como um processo coletivo
A realização desses princípios geravam:
·      Autogestão das crianças
·      Educação pelo trabalho
·      Adoção consciente das normas estabelecidas para a vida em comum
·      Domínio de si conquistado gradualmente
·      Um sistema original de recompensas e punições (tendo em vista a sensibilidade para com o outro)
·      Numerosas formas de atividades educativas e recreativas, coerentes às necessidades das crianças, por diversas linguagens
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PERPETUAR X TRANSFORMAR
A SOCIEDADE 
A criança “acomodada” é o sonho da educação contemporânea. A escola produz sujeitos, com um imenso risco de tornar a criança um ser humano fraco e covarde. Em sua trajetória, Korczak traduziu a dor e a perplexidade em relação à perversidade humana, produzindo uma obra que mostra a importância da tolerância e respeito para com as crianças.
Janusz Korczak deixou muitos escritos, dentre os quais 24 livros e cerca de mil artigos publicados em revistas. As principais obras incluem “Como Amar uma Criança” e “O Direito da Criança ao Respeito” que 30 anos depois, viriam a inspirar a Declaração dos Direitos das Crianças, das Nações Unidas. 

Bibliografia sugerida:
Como amar uma criança. 4º ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.
O Direito da Criança ao Respeito. São Paulo. Ed. Summus. 1986.
Quando eu voltar a ser criança. 4º ed. São Paulo: Summus,1985.
Sobre o autor:
MARANGON, Ana Carolina Rodrigues. Janusz Korczak, precursor dos direitos da criança: uma vida entre obras. São Paulo: UNESP, 2007.